rabbit hole
Nunca pensei que a Natureza fosse uma força tão exuberante, não, sempre a vi como algo extraordinário, algo de se tirar o fôlego ao se admirar e de retomá-lo ao sentir, como um caminho tortuoso que o quê da vida faz ao passear por nossos pulmões, tirando as impurezas do mundo moderno e tentando de alguma forma retomar o lugar que lhe foi reservado, aonde uma placa de madeira com letras pintadas à mão com tinta vermelha dizem ‘LAR’, sempre a vi como a água do mar que brinca com as impurezas da praia, mesclando-as com as estrelas, conchas e pequenos animais que a habitam. Sempre vi a Natureza como uma mulher de cabelos azuis, vestido verde e pele transparente, com um lasso enorme e vermelho, cheio de fitas, indo por toda sua imensidão, confundindo-se com mexas, veias e lágrimas. Mas hoje, voltando para casa, sem muita coisa boa em mente, como quem procura um precipício de ideais para se jogar ou alguma sopa de letras para devorar, eu avistei a Lua e sua imensidão de beleza, era lua minguante e o céu estava a me sorrir, talvez fosse Deus, talvez fosse a Natureza, talvez fossem a mesma coisa, com nomes e crenças diferentes, mas era. Era enorme e brilhosa, como quem se faz charme; tinha a aparência fina nas pontas e gorda no meio, como a de alguém que faz dieta na frente dos outros e ataca a geladeira quando se sente solitária à noite, para falar a verdade parecia uma rede de deitar, esperando que alguém que estivera muito cansado deitasse em seu tecido branco e, de alguma forma, se sentisse confortável o bastante para ousar em pensar sobre a vida e seus mistérios cor de anis.
Eu, que contemplara tanta beleza em um ponto que, se estendido minha mão à frente de minha cabeça, não era muito maior que a distância do meu polegar com meu dedo indicador, não entendi como andava, por que colocara pé frente pé e fazia daquilo um, dois, três passos, tal sinfonia silenciosa - sem contar os dós e fás que meus sapatos emitiam com a pressa do momento - e da beleza que era meus braços e mãos dançando sem presunção alguma no ar, tão galanteadores com o vento e com as paredes que, ocasionalmente encontravam. E me perguntei por que tudo aquilo me sufocava com tantas perguntas sem respostas que jorravam aos montes por meu coração e cérebro, outrora inimigos, agora unidos pela dúvida. Que dúvida? A dúvida da vida.
Duas faces, essa tal de Natureza, pois ao mesmo tempo em que subia a ladeira que dava acesso à minha rua, olhei para o céu, para dar oi a minha mais nova amiga, ou amigo, seja de quem pertencera aquele sorriso branco lá em cima e, para a minha surpresa, deixara-me para trás, foste embora sem nem ao menos um cordial adeus me dar. Olhei para trás e lá estava ele, aquele sorriso que outrora tão confortável, agora parecia zombar de mim. À frente, tudo que podia ver era o infinito e o vazio do meu ser, esperando para ser preenchido, esperando para ser rabiscado. Mas era frio, porque a Lua já não estava mais comigo, talvez sorrindo para outra pessoa, persuadindo um outro ser; espero que não a dê bola, espero que acredite em Deus, não na Natureza. Aí quem sabe irá pensar quebela e irá continuar sem questionar-se a si ou a vida em um todo.
A música se foi e a Sol já vai surgir, mas garanto que esse gosto seco em minha boca vai perpetuar por alguns tantos anos até que possa enfim ser curado com um pouco de água sagrada, com um pouco de conhecimento. Se quero acreditar na existência de algum tipo de Deus, tenho que acreditar também na existência de algum tipo de oposição, o que muitos chamam de inferno. Mas se acredito na Natureza, o que me resta é acreditar no Homem como oposição, que caiu da copa mais alta por desrespeitar os ventos, por não acreditar na chuva e por tentar levar os pássaros ao chão. Se existe algum tipo de ideia maior no mundo, é preciso dar atenção ao fluxo contrário da correnteza, para não ser surpreendido por uma onda amiga.
